quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A velha senhora

Naturalmente, não conheci a dona Theolina de Andrade, morta em 1954. Também chamada de Sinhá Junqueira, seu olhar hoje paira sereno, num grande quadro pendurado em uma das salas do casarão onde ela viveu, na rua Duque de Caxias.

Em seu testamento, a sinhá fez algo raro de acontecer nesta época em que vivemos - deixou expressa, e por escrito, a ordem para transformar o seu casarão em uma biblioteca de acesso público. E lá está, até hoje, a Biblioteca Altino Arantes. Um raro exemplo de preservação do patrimônio histórico, normalmente tão desprezado pela maioria.

Conheci a biblioteca ainda moleque. Como morava a poucas quadras de lá, não era raro usar suas pesadas enciclopédias para trabalhos escolares nos tempos do Dom Luiz do Amaral Mousinho.

Tardes e tardes debruçado sobre aquelas pesadas mesas de madeira, copiando textos para trabalhos de história, geografia, biologia, português.

Pois outro dia voltei à Biblioteca Altino Arantes. Mais do que isso, voltei ao meu passado. Lá estão as mesmas mesas, as mesmas cadeiras, basicamente os mesmos livros, o mesmo olhar da Sinhá Junqueira e o mesmo José Carlos Gomes. Há quase meio século trabalhando na biblioteca, Gomes começou como officeboy e hoje administra o prédio e o seu acervo com mais de 40 mil obras. Títulos que estão lá, dia sim, dia também, à disposição de quem queira se desligar do “maravilhoso mundo tecnológico”.

Neste meu retorno, saí de lá com um livrão de seiscentas páginas de Dom Quixote. Não terminei ainda, mas pretendo voltar mais vezes à Altino Arantes em 2014. Me aguarde, Sinhá. (Angelo Davanço)

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